Os EUA prenderam mulheres por puro preconceito na 1ª Guerra Mundial

Durante a Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha registrou cerca de 416 mil internações de soldados britânicos devido à Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), na época chamadas “doenças venéreas”. Estima-se que um homem tinha cinco vezes mais probabilidade de contrair sífilis ou gonorreia do que a doença “pé de trincheira”, considerada a miséria do conflito.

Vendo a condição se deflagrar entre as tropas, o governo britânico instaurou, como método de controle, uma lei militar que penalizava os soldados hospitalizados suspendendo seu salário para cobrir os custos de seus tratamentos, visto que o Exército perdeu muito dinheiro erguendo hospitais e procurando medidas para tratamento.

Por outro lado, as autoridades aconselharam a castidade cristã ou o fornecimento de instalações masculinas recreativas (bordéis) para que os homens tivessem relações sexuais em um ambiente “controlado” por médicos que examinariam as prostitutas. Todo o processo foi um show de horrores apenas para as mulheres, estigmatizadas e lançadas à margem da sociedade, além de submetidas a procedimentos invasivos.

Em meados de 1912, os Estados Unidos começaram a enfrentar o mesmo problema, contudo, conseguiram fazer tudo de maneira ainda pior e cruel do que os britânicos.

Culpadas, criminalizadas e “impuras”

(Fonte: History/Reprodução)(Fonte: History/Reprodução)

Conforme dados do “Relatório do Conselho Interdepartamental de Higiene Social dos Estados Unidos para o ano fiscal encerrado em 30 de junho de 1920”, cerca de 1,5 milhão casos em um ano causaram perdas econômicas imensas para os EUA, bem como US$ 69 milhões de perda salarial e US$ 15 milhões em taxas extras para o setor militar.

As ISTs mais comuns eram a sífilis e a gonorreia, que acompanhavam cerca de 15% dos soldados, sendo a gonorreia a principal causa de cegueira infantil e infertilidade em homens e mulheres. Além dos prejuízos sociais e morais, como vergonha, divórcio, miséria e problemas familiares.

(Fonte: NBC News/Reprodução)(Fonte: NBC News/Reprodução)

O relatório acusa que o fator problemático eram homens com “moral frouxa”, que não só espalhavam mais ainda a doença viajando, quanto se relacionando com profissionais do sexo e outras mulheres consideradas “delinquentes e promíscuas”, que desfrutavam da mesma vida sexual muito ativa como os homens — ainda que não trabalhassem usando o próprio corpo.

Em 1912, visto que ter soldados que não pudessem participar da guerra era um problema nacional, o governo começou a nutrir ideias sobre como prevenir a disseminação das ISTs, então a solução foi perseguir apenas as mulheres, claro.

A caça às bruxas

(Fonte: Wikiwand/Reprodução0(Fonte: Wikiwand/Reprodução0

Visando salvar a população dos horrores das doenças, em 1918, o governo americano homologou a lei federal Chamberlain-Khan Bill, que permitia que as autoridades detivessem qualquer mulher que suspeitassem estar infectada. E uma vez que elas fossem encarceradas, não poderiam sair mais.

Contudo, é importante ressaltar que nem todas as mulheres foram alvo da lei, claro, apenas aquelas que habitavam as comunidades negras, asiáticas e latinas; e que estavam em situação de vulnerabilidade, como as solteiras e desempregadas. A polícia fazia um “pente fino” pela periferia procurando qualquer comportamento que julgassem “suspeito”, como uma roupa mais curta. Não havia métodos científicos envolvidos, tanto antes quanto depois da prisão. Tudo era baseado em misoginia e preconceito.

Essas mulheres oriundas de cenários de minorias foram presas em centros de detenção, onde até foram estupradas apesar de estarem supostamente infectadas, submetidas a torturas e esquecidas pelo governo americano.

A lei começou a entrar em declínio no final da Segunda Guerra Mundial, quando começou a se deteriorar, se desfazendo principalmente com os movimentos civis e feministas da década de 1970.

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